Estou lendo o último livro do ano “Noites Tropicais”de Nelson Motta, confesso que até uns dias atrás não sabia quem era o Nelson Motta, fui levada pelo meu marido a uma apresentação na Livraria Cultura de seu livro sobre o Tim Maia, a apresentação ganhou logo um ar de bate-papo e o baixinho invocado começou a distribuir pérolas aos politicamente corretos, e dizer verdades que de tão simples e diretas me fizeram imediatamente querer saber quem era esse cara e a de certa forma admira-lo.
Hoje em dia ninguém diz o que pensa, para não ser politicamente incorreto chega a ser inervante o festival de idiotisses que temos que ver e ouvir.
As perólas:
Sobre o fato de em um recente festival internacional uma banda brasileira ter sido orientada a fazer o show em menos tempo por conta de um atraso, para não comprometer o show da banda internacional que cantaria a seguir, Nelson Mota foi simples ao dizer que quando pegaram o microfone o show era deles eles não tinham obrigação de encerrar mais cedo e de fato não o fizeram mas fizeram um papelão de ficar xingando e agredindo verbalmente as bandas e artistas internacionais. Nelson Motta foi além disse que ver Ivete Sangalo, Jota Quest… se vê todos os dias eles cantam em quase todo aniversário de cidade e muitas vezes sem cobrar ingresso, “temos o ano inteiro para ouvir eles cantar, mas o Stevie Wonder é só aquela oportunidade”, fiquei feliz por dentro porque aquilo era exatamente o que pensava, no fim o cara que o indagou sobre esse episódio estava na minha fileira e disse na saída comentando com seus pares que achou Nelson Motta muito verborágio, eu fiquei querendo arrumar uma confusão mas os brios de civilidade me impediram de o fazer, mas é incrível como essas pessoas pensam igual, ou menor não pensam são uma massa pseudo socialistas e esquerdistas que tem o mesmo viés intelectualoide imbecil e não suporta alguém que pensa e diz algo que para eles não é politicamente correto.
Sobre a critica aos cantores brasileiros que estão cantando em Inglês “Se você quer ser ouvido lá fora tem que cantar em inglês, muita gente criticou Tom Jobim e hoje até um esquimó sabe cantar Garota de Ipanema”.
Sobre não se fazem músicas como antigamente (esse foi um comentário dele se antecipando as perguntas) “normalmente quem faz uma pergunta dessas já passou dos quarenta e o que o cara busca não é uma boa música mas sim o retorno dos áureos tempos de juventude, só que o tempo passou e a música também faz parte desta mudança, não dá para recuperar a juventude”.
Bem com o livro Noites Tropicais comprado e devidamente autografado, comecei minha incursão no mundo musical brasileiro do qual eu quase nada sabia, para quem não leu o livro eu recomendo porque a forma de escrever de Nelson Motta é muito boa é uma crônica gostosa e bem envolvente. Parece que estou lendo a parte cultural da Vogue, é muito bom.
Mas além da história da Bossa Nova de que eu sou fã assumida, outras coisas me chamaram a atenção uma delas foi o constante uso das palavras exigente e perfeccionista (em suas diversas acepções e eufemismos), todos as pessoas que admiro pela qualidade da música que produziram são exigentes e perfeccionistas. Isso me chamou a atenção porque algumas pessoas costumam as vezes me chamar de muito exigente e muito perfeccionista e as vezes fico me avaliando ou sendo avaliada e punindo pensando que isso é quase um transtorno e que eu tenho que me tratar.
O fato é as pessoas que conseguiram grandes coisas que de alguma forma mudaram o mundo (mesmo que esse mundo seja o da música brasileira) foram e são pessoas extremamente exigentes.
Tim Maia era um malandro que “se não tivesse o talento que tinha seria dono de uma boca de fumo” (N.M.), era exigente, chato ele sozinho poderia ser o produtor e cantor como de fato as vezes foi, regulava o som e organizava as coisas da forma como achava que ficaria melhor e de fato ficava muito bom quando ele não sumia no show e não cantava, seja por chilique artístico seja por entrar e não sair da marola.
Elis Regina é, para mim, a melhor cantora de música brasileira, só que sempre foi uma figura distante, um ídolo adorado de longe, o livro trouxe mais dela, mesmo que certos fatos possam ser questionáveis em toda a narrativa pois essencialmente o livro é um visão de uma pessoa de algo que ela viveu e por isso carrega uma forte visão unilateral da história, ele me leva a conhecer um pouco dessa grande cantora que eu nunca imaginei dizendo para saírem de cima do seu “rabo” (na porta da Igreja no dia do seu casamento se referindo a pessoas que estavam prendendo o seu vestido), muito menos imaginaria ela nervosa e com medo em um show em Montreal, nem que ela havia jurado não cantar Garota de Ipanema e teve que cantar, ao vivo e sem ensaio, com Hermeto – Festival de Jazz em Montreux.
E mesmo Roberto Carlos, minha gente o Rei, ele mesmo depois de consagrado se sente ansioso ao cantar em sua cidade natal.
Mas de todos os casos citados no livro o que a busca pela perfeição me chamou mais a atenção foi o de Marisa Monte, ela queria ser cantora lírica mas isso exigia que ela fosse embora do país, então ela resolveu cantar música brasileira mas não queria começar vendendo discos queria cantar em palcos aprender e aprimorar, verdade que não precisasse viver da música pois morava na casa da mãe e tinha uma boa situação financeira, mas ela não saiu como muitos “eu quero ser cantor e quero gravar e vender e estourar”, ela queria saber fazer, aprender e o resto bem o resto é conseqüência, ou não! no caso de Marisa Monte a conseqüência foi a melhor que se podia esperar.
E o pianista Roberto Alves, essa história é fenomenal, ele adorava tocar piano mas não tinha um em casa, Nelson Motta conta que ele tocava nas lojas da Mesbla graças a bondade do gerente. Na época de preparação de Marisa Monte ele foi chamado para ensaiar com ela e tocava o piano da casa da mãe de Marisa até ela encontrar o ritmo ela era exigente e perfecionista e ele também, hoje ele é professor de pianno achei a pagina dele na internet http://robertopiano.com.br/ acho que hoje ele não precisa mais tocar o piano dos outros ele agora tem seu próprio instrumento.
Mas não estou usando todos esses casos para defender que a exigência e o perfeccionismo são sempre cabíveis porque se você não tem talento para o que está fazendo sua exigência e seu perfeccionismo não te levaram á um resultado positivo, pois “muitas vezes um artista gosta de uma música – mas a música não gosta dele e o desastre é certo “, com isso Nelson Motta quer dizer que não adianta a música ser linda se sua voz, seu timbre não se adequar a ela.
Eu posso ainda não conseguir conectar os pontos mas acredito no que Steven Jobs disse que só mais tarde você consegue ligar os pontos e ver que as coisas não foram em vão e que o resultado que vai alcançar no futuro tem relação com isso que hoje me esforço para fazer o melhor.
